Wednesday, 7 June 2017

A Vida Não é Justa – Andréa Pachá

Eu realmente gosto de livros desse estilo. Vou colocar a historia que me fez chorar.

 Papai Noel não existe
Atrasada para o início das audiências, não pude deixar de reparar na menina sentada na porta da sala, ao lado de um senhor. Vestida para uma festa, mal se mexia para não amassar a roupa. Aos dez anos, os olhos brilhavam. A ansiedade era perceptível pelo movimento das perninhas que não alcançavam o chão e balançavam sem parar. Perdera a mãe aos cinco anos. Era criada pelo avô materno. Durante quatro anos, seu Arlindo fez o que pôde pela neta. Era lavrador. Do seu trabalho tirava o mínimo para a sobrevivência. Com as necessidades da criança aumentando, faltou dinheiro para o seu sustento. Agora, ela precisava de uniforme, de sapato, de uma roupinha melhor. Ele segurou sozinho enquanto possível. Quando ameaçou faltar comida, fez o que já era para ter sido feito há quase uma década: entrou com um processo de investigação de paternidade. A neta tinha um pai e ele devia contribuir com algum dinheiro. Preferia violar a promessa que fez à filha de nunca procurar Emerson a ver Jade passar fome. Fizeram o exame de DNA e compareceram à audiência. O avô, antes mesmo de verificar o resultado do laudo, mandou a neta se arrumar para conhecer o pai. — Sim, era aquele moço que estava no hospital quando foram tirar sangue. Ele não falou com você porque não sabia que era o seu pai. Mas agora ele vai saber. Emerson chegou atrasado. Franzino, aos 26 anos, mais parecia um irmão adolescente de Jade. Como já estava um pouco atrasada com a pauta e o exame de DNA foi positivo, abreviei a conversa. — Vocês já devem ter visto o resultado. O senhor trabalha com o quê? — Como assim?! Eu sou o pai?! — perguntou, aflito, o rapaz. Confirmado o fato, Emerson começou a chorar convulsivamente, segurando a cabeça entre as mãos e evitando olhar para a menina. — Não pode ser! Não pode ser! — gritava descontrolado. Imediatamente, pedi a Jade que esperasse no cartório. Os funcionários cuidariam dela enquanto eu tentava entender aquela reação inusitada. Tremendo muito, balbuciava palavras incompreensíveis. Esperei que se acalmasse e disse: — Rapaz, não precisa desse show. Você fez um exame. Sabia que a menina podia ser sua filha. Para que esse comportamento agora?! Parece um adolescente... — Doutora, eu não quero, não posso ter filha. Acabei de casar. Não pode ser verdade! Não foi fácil retomar a palavra. Os soluços de Emerson interrompiam qualquer tentativa de diálogo. Aguardei mais um tempo e prossegui: — Você conhecia a mãe de Jade? Se relacionou sexualmente com ela há dez anos? — Eu tinha 16 anos, doutora! Ela era muito mais velha que eu. A gente morava perto. Eu nunca tinha feito aquilo. Ela me atiçou, me provocou. Dizia que eu não era homem. Quando eu saía da escola, ela me esperava, me levava pra casa dela... Eu era um menino! Como é que eu podia adivinhar que aquela barriga que ela botou era minha?! — E continuou: — Nunca mais eu soube dela, nem de filha nenhuma. Ai, minha Nossa Senhora!... Minha mulher não vai acreditar em mim. Cabisbaixo, o avô de Jade, envergonhado, falou baixinho: — Ela não era moça comportada, não, doutora. Não posso tirar a razão dele. Ela foi pra minha casa ter a menina e nunca quis procurar o pai. Eu jurei pra ela que nunca ia contar pra ele, mas a menina tá precisando. Eu não tenho condições de continuar com ela. Se ele não ajudar, a senhora resolve como é que vai fazer... eu não posso mais ficar assim desse jeito... diz que tem uns internatos que a senhora pode mandar... Foi com uma dificuldade enorme que, depois de algumas horas, consegui fazer Emerson entender que era necessário registrar a filha. Não era culpa dele. Muito menos da menina. Toda criança que nasce tem direito a um pai e uma mãe. Ele concordou. Os pais têm obrigação de sustentar seus filhos. É da lei. Mais do que isso, é um comando natural. Nenhum bicho deixa o filho morrer de fome. Ele trabalhava. Podia sustentar a filha. Embora intransigente no começo, assentiu com a proposta. Com a mulher ele se entenderia. Era só dizer a verdade. Quando tudo parecia estar resolvido, emergiu o maior e mais difícil conflito do processo: Jade estava no corredor. Queria conhecer o pai. Queria passear com ele. Só falava nisso desde o exame de DNA. — Eu vou registrar, vou pagar a pensão, mas, pelo amor de Deus, doutora, eu não quero ver a menina. Fiquei desesperada. Pela primeira vez, em toda a minha vida profissional, eu não tinha a menor ideia do que podia fazer. Sempre tive um discurso articulado no sentido de que se um homem não quer um filho, que use camisinha ou faça uma vasectomia. Mas aos 16 anos e naquela história? Impossível. Ele não era obrigado a conhecer a filha ali. Não era obrigado a desejar uma aproximação com uma criança que, para ele, era a representação de um relacionamento forçado do passado. Eu já havia visto muitas mulheres passando por uma situação parecida, mas um homem era a primeira vez. Embora algumas decisões da justiça digam que o amor e o cuidado são obrigatórios e sua falta pode ser ressarcida com dinheiro, esse nunca foi meu entendimento. Jamais compreendi de que maneira a patrimonialização do afeto pode recompor um conflito ou reconstruir relações familiares esgarçadas. Fico sempre com a sensação de que, nesses casos, quem tem dinheiro tem direito ao desprezo com pagamento à vista. Refletia sobre isso, enquanto Jade, no corredor, esperava para conhecer o pai. Deve ter idealizado aquelas cenas de programa de domingo, com uma música ao fundo, um abraço apertado e lágrimas para coroar as perdas que já experimentara ao longo da vida. Não tive dúvidas: pedi licença ao defensor e convidei Emerson para falar em particular no meu gabinete. Ainda soluçando, ele repudiava qualquer aproximação. Fiz um apelo verdadeiro: — Cara, eu imagino o que você está passando e o que está sentindo. Eu não sei como vou dizer para aquela menina linda que se arrumou toda para conhecer o pai que você não quer saber dela. Chamei você aqui porque não tenho coragem de fazer isso. Ele chorava. Eu chorava. Prossegui: — Você vai me fazer um favor. Vou chamar ela aqui no gabinete, sem mais ninguém por perto. Posso ficar, se você preferir. Vamos, juntos, explicar para ela que tudo isso é muito novo, que você está surpreso, mas que o tempo vai ajudar. Depois, você pode ir embora. Emerson reagia como um menino desprotegido e com medo. Implorei: — Emerson, você é muito novo, mas a Jade tem só dez anos. Já perdeu a mãe. Faz um esforço, por favor! Engole esse choro. Jade entrou. Eu falei por ele sobre o reconhecimento da paternidade, a pensão e sobre o tempo necessário para uma aproximação. Mesmo sem capacidade para perceber a densidade da situação, Jade, confrontada com a verdade, assimilava e entendia o que ouvia. Parecia uma criança diante da revelação já conhecida de que Papai Noel não existe. Num esforço sobre-humano, Emerson acariciou a cabeça da menina e com um beijo, sem olhá-la nos olhos, despediu-se. Abracei Jade apertado. Elogiei muito o seu vestido e a sua inteligência. Custei a me recompor para retomar as audiências. Nunca me senti tão triste e tão impotente.

(lelivros.com)

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